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Site atualizado em abril de 2023
Alexandre Miranda
Idosos e neurocirurgia
Até pouco tempo atrás, pessoas idosas, especialmente acima de 90 anos, não eram submetidas a praticamente nenhum tipo de cirurgia intracraniana. Os procedimentos nessa faixa etária tinham altíssimos índices de mortalidade, então os neurocirurgiões quase sempre optavam pelo tratamento clínico. Nas décadas dos anos 1980 e 1990 cerca de 90% dos pacientes, acima de 90 anos, não toleravam procedimentos cirúrgicos cerebrais e acabavam falecendo logo em seguida ou algumas semanas depois, em decorrência da própria cirurgia ou de complicações como pneumonia, por exemplo.

Pessoas mais velhas têm um risco aumentado de sofrerem quedas

O crescimento da quantidade de idosos nos hospitais reflete o aumento da expectativa de vida da população
Felizmente, a expectativa de vida da população brasileira só tem aumentado nas últimas décadas e a previsão é de que continue assim por muito tempo. Hoje em dia, é bem mais comum ver pessoas com mais de 90 anos internadas em hospitais ou sendo atendidas nos serviços de urgência. Além de estarem vivendo mais, os velhinhos também estão cada vez mais saudáveis. Isso tem relação direta com a evolução dos tratamentos médicos e com a prevenção de diversas doenças. Em contraste com o passado, hoje em dia muitos idosos praticam atividades físicas regularmente, seguem dietas saudáveis e levam uma vida totalmente independente. Apesar do aumento da quantidade de produtos industrializados, atualmente as pessoas têm disponível uma variedade enorme de alimentos e níveis de higiene e conservação bem diferentes do passado. Antigamente, as pessoas tinham uma dieta mais "natural", porém, pouco variada, pois, normalmente só tinham à disposição os vegetais produzidos nas redondezas.

A prática regular de atividades físicas é bastante saudável
Idosos ativos, porém, têm maior chance de se machucar. Quedas, por exemplo, são frequentes e podem ter consequências graves. Essa predisposição é ocasionada por diversos fatores, como fraqueza muscular, rigidez ou dor nas articulações, diminuição da visão, distração, etc. Traumas no crânio e problemas ortopédicos, como fraturas, são relativamente frequentes. Nos últimos anos, também houve um aumento significativo do uso dos chamados anti-agregantes plaquetários, como o Ácido Acetil Salicílico (AAS, Aspirina) e dos anticoagulantes, como a Varfarina (Marevan) em pessoas idosas. Tais medicamentos proporcionam benefícios indiscutíveis e também contribuem para o aumento da expectativa de vida, porém, deixam os pacientes com predisposição a sangramentos. Com isso, também houve aumento do número de pessoas com sangramento no sistema nervoso central e, eventualmente, da quantidade de cirurgias neurológicas realizadas com a finalidade de tratar essas hemorragias.

A idade avançada favorece a ocorrência de quedas com trauma no crânio ou fraturas ósseas
Os tratamentos médicos também estão em contínua evolução. A cada dia os exames fornecem diagnósticos mais precisos, os procedimentos cirúrgicos estão se tornando mais refinados e novos equipamentos vão surgindo para facilitar a vida do neurocirurgião. Com isso, os índices de mortalidade associados à neurocirurgia vem caindo progressivamente e, hoje em dia, a realidade é bem diferente do que era há vinte ou trinta anos atrás. A tendência é que o número de cirurgias neurológicas em pacientes com idade avançada aumente progressivamente. Até pouco tempo atrás, 90 anos era o limite geralmente utilizado para submeter um paciente a um procedimento neurocirúrgico intracraniano. Pessoas acima dessa idade, não deveriam ser operadas, pois, as chances de sucessos eram baixíssimas. Curiosamente, observa-se que, atualmente, esse limite de idade passou a ser de 100 anos. Não porque existam trabalhos ou evidências que pacientes acima dessa idade não devam ser operados, mas, provavelmente, por tratar-se de um número emblemático.


A maioria da pessoas mais velhas estão buscando manter sua independência, mesmo que parcialmente
É muito importante o médico ouvir as expectativas do paciente e de sua família. Em muitos casos, a família tem um papel de destaque porque, dependendo da situação, é ela quem cuida, ou vai cuidar, daquele idoso. É importante observar que uma boa parte das pessoas preferem ficar com alguma sequela ou limitação, a correr o risco de se submeter a um procedimento cirúrgico. Da mesma forma, o oposto também é verdadeiro. Muita gente não tolera nenhum tipo de limitação e acha melhor tentar todas as formas de tratamento à procura de uma qualidade de vida melhor e independente.